Cleide e suas crianças em Natal

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338479_2079888176082_559911157_oA questão da criança abandonada motivou o encontro de duas mulheres que vivem, uma no nordeste e outra no sul, em territórios extremos do Brasil.  O sonho de Cleide Tomé de Lima e Silva, que vive em Nísia Floresta, Região Metropolitana de Natal, Rio Grande do Norte , coincidiu com o de Wanda Moreira,  de São Paulo, capital. “Sempre sonhei em fazer algo para melhorar a vida dos menores carentes”, afirma Wanda. A outra,Cleide, foi menor de rua e sempre sonhou em ajudar estas crianças. Hoje ela oferece um lar, escola e alimentação para 29 crianças e adolescentes.

382927_2079887976077_1211070237_nA família de Cleide começou a crescer há 15 anos, quando iniciou o projeto do Lar Bom Jesus ao evangelizar crianças abandonadas pelos pais, que perambulavam pela madrugada, nas ruas de Natal. “Depois que casei e tive meus filhos, consegui me tornar uma mulher de bem, sempre acalentei o sonho de ajudar os pequeninos abandonados pelo fato de ter sido criança de rua um dia e de conhecer o drama do abandono”, conta. “Minha mãe era alcoólatra e eu para comer pedia esmola”, lembra. “Depois uma mulher me levou para casa dela com a justificativa de me criar e, na verdade, aconteceu ao contrário, me tornei sua empregada”.

Quando entrou na igreja evangélica andava à noite pela cidade para evangelizar. Com pena de muitos menores que encontrava na rua, os levava para casa, os alimentava e cuidava. Chegou a ter cerca de 50 crianças em sua casa em Ponta Negra, até mulheres de rua com seus filhos.Com o tempo, a região de Ponta Negra, zona turística de Natal, começou a ficar perigosa para viver com crianças e adolescentes pelas más companhias e drogas. Neste momento decidiu mudar com sua família, incluindo os três filhos biológicos, para um lugar mais tranquilo e mais barato.

img_0492Na época da mudança já estava com os seus 29 filhos, com a situação regularizada no Juizado de Menores da cidade, e foi morar na área rural de Pium, em Nísia Floresta, vivendo de ajuda da comunidade e doações particulares, sem nenhum apoio oficial. Wanda, a paulista, entrou nesta história no ano passado por acaso, quando confidenciou ao “bugueiro”, um espécie de guia turístico, que tinha como sonho ajudar crianças desprotegidas. “Você quer ajudar mesmo? Então vou te levar a um lugar e conhecer uma mulher”, respondeu ele.

De lá para cá, Wanda tornou-se a disseminadora da iniciativa de Cleide e já conseguiu mobilizar muitas doações com seus amigos que abraçaram a causa da mãe nordestina. “Todo mundo me pergunta por que não ajudo as crianças abandonadas de São Paulo. Eu respondo que em São Paulo existe mais condições de buscar auxílio e no caso de Cleide é mais difícil. Vive num lugar distante e carente. Talvez, também porque não existe nada por acaso, era para eu conhecer Cleide e ajudá-la a construir um lar para estas crianças”.

Cleide está construindo ao lado, num terreno doado, a casa para abrigar a grande família, considerando que a atual é alugada ao custo de R$ 1.500,00, que é paga também com ajuda dos outros. Wanda este ano conseguiu doações em dinheiro e investiu no material de construção para adiantar as obras. Cleide conta com a colaboração das filhas, especialmente uma que casou recentemente e a ajuda administrar o lar, agora também de sua mãe, que está recuperada do vício e atua como cozinheira, e do marido que a apoia em tudo.

Uma mãe com tantos filhos sempre tem muitas histórias para contar, no entanto, as histórias de Cleide são tristes e dramáticas. “É difícil tirar marcas emocionais de meninas que foram abusadas sexualmente aos quatro, aos sete anos de idade por padrastos e homens sem escrúpulos “, lamenta. “Dou abrigo a duas mães que me ajudam a criar os filhos dela. Mas como são de rua não têm muita responsabilidade e, às vezes, desaparecem sem avisar e só retornam quando estão sem dinheiro e sem onde ficar”.

Quando peguei da rua Alisson, ele era um bebê de 3 anos. Na noite  que chegou em casa estava com uma enorme barriga e o coloquei para dormir no meio de meu marido e de mim. Durante à noite fez coco e nas fezes encontramos até palitos de dente. O menino comia provavelmente comidas do lixo, com tudo, e o mau cheiro era algo insuportável. Hoje está lindo e forte. Tenho já quatro rapazes, 18 anos, que estão trabalhando, têm sonhos e namoradas. Olho com carinho e vejo que valeu a pena ajudar.

“É necessário mão firme para continuar, especialmente porque vivo de doações”, diz ela. Wanda, por sua vez, não é evangélica e acredita na força e no desejo de fazer o bem.Pretende continuar na missão de ajudar esta casa e cada vez mais divulgar o trabalho de Cleide. “Com o dinheiro que arrecadei em São Paulo fui pessoalmente comprar material de construção e fotografei tudo”, conta. “É preciso fazer esta documentação porque hoje as pessoas ficam um pouco desconfiadas em ajudar e eu faço isto para mostrar que se cada um faz a sua parte é possível construir algo e diminuir as dores da humanidade”.

Informações úteis:

Lar Bom Jesus

Chácara Encontro dos Ventos
Rua Lagoa Seca, 05
PIUM – Área Rural – Nísia Floresta
CEP 59.164-000 – Rio Grande do Norte

Fone: (84) 3237=0240

 

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About Author

Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo.

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